domingo, 24 de maio de 2015

IRREVERSÍVEL


Sinto saudades de um mundo menos artificial. Isso pode soar como papo de velho, mas não é. Somos escravos do mundo moderno, das fotos digitais, das músicas digitais, do transporte motorizado, das amizades cibernéticas, das comidas que vem empacotadas em vasilhas de plástico; fato que está nos tornando cada vez mais padronizados e homogeneizados. Nossa sociedade está cada vez mais higiênica, no mal sentido. Estamos nos esquecendo de sermos seres humanos. Queremos materializar tudo, sintetizar, ordenar. Abdicamos prazeres em prol do plasmado, limpo. Esses dias eu e Lígia fomos a um aniversário infantil e nos espantamos com o que vimos. Para começar, o bolo de aniversário era de papel. Sim, papel! Nada de vela de aniversário enfiada no bolo, nada de glacê, nada de granulado de chocolate, nada de convidado se lambuzando para comer a torta em guardanapos. O bolo era um enfeite apenas, de papel. E mal feito por sinal, já que o bolo era completamente quadrado e cheio de rebarbas. No lugar de fatias de bolo foram distribuídos cupcakes fechados em potes de plástico. Sem recheio, sem chantilly. Só um bolo sem graça. Brigadeiros, beijinhos, cajuzinhos? Há! Nada disso. Haviam latas de Coca-Cola em cima da mesa no lugar dos docinhos (!), detalhes de plástico imitando caixa de presente (!!) e balas fechadas em latinhas (!!!). Isso tudo para facilitar a limpeza depois da festa, só pode ser. É como querer beijar sua mulher mas ter nojo da saliva dela. É como ir pra praia e ter nojo da areia ou do mar. Isso sem falar nas inúmeras crianças vidradas nas telas de celular e iPads dos pais, em meio às centenas de brinquedos que haviam no lugar. Não sou velho a ponto de dizer que eu cresci num mundo diferente desse, pois só tenho 28 anos, mas em minha infância os aniversários eram mais verdadeiros. Eram feitos para crianças, e não para robôs. Nos lambuzávamos com bolos e docinhos maravilhosos. As brincadeiras eram físicas, e olha que fui garoto de apartamento. Já havia o videogame, mas ele era apenas mais um brinquedo dentre muitos outros. Corríamos, imitávamos personagens, éramos heróis, vilões, águias mágicas, dragões guerreiros, gárgulas de fogo. Salvávamos princesas em castelos abandonados. Transformávamos gravetos em espadas de luz. E, de vez em quando, recorríamos aos nossos games eletrônicos para brincar de Sonic ou Mario. Hoje não... hoje tudo é artificial. E para minha surpresa, até o bolo de aniversário é artificial (fazia tempos que não ia em uma festa infantil, não sei quando essa moda começou). Uma higienização social e psicológica. Dizem que joguinhos de celular estimulam a memória, e de fato, temos produzido cada vez mais crianças com facilidade de recordação, mas com péssima criatividade. E isso reflete diretamente em nossa cultura, que está morrendo a cada dia. Não é à toa que nos dias de hoje nossos jovens só querem saber de passar em concurso público, mas mal sabem o significado da palavra 'empreender'. Aliás, somos poucos os empreendedores atualmente. Empreender virou uma atividade taxada, um risco, um contrato com a desestabilidade. Ganhar 5 mil por mês num emprego público chato, maçante e rotineiro é mais bem visto que ganhar 30 mil numa empresa criada por você mesmo, com seu suor, fruto de seus sonhos e conquistas. Nos dias de hoje, até os empregos são artificiais. As pessoas se esquecem que fazem parte de um esquema orgânico, desenhado pelo acaso. Estamos sendo transformados em máquinas padronizadas. Uma tristeza. 

- Charles Tôrres

Um comentário:

  1. Eu também acho o cúmulo esse tal de bolo de papelão. No meu casamento, o bolo só tinha dois andares, mas era de verdade! E todo mundo que quis, se lambuzou. E aniversório sem brigadeiro, sem cajuzinho? Qualé ...

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