sábado, 2 de maio de 2015

AMARGO MEL DE CADA DIA


Lá de cima os urubus sugam nosso pólen e, com o árduo auxílio das abelhas escravas, o transformam em mel falsificado para os animais beberem. As flores estão secando há tempos; o jardim, apesar de ainda belo, perdeu seu alvor.

Eles se mantêm imóveis no ar esperando produzirmos esterco para empilharmos seus muros de adobe. Aguardam ansiosamente por nossa carniça cansada.

Os urubus estão inacessíveis, cada vez mais. Não dá pra usar meu estilingue neles. Já tentei.

Jogam-nos pão para comermos assistindo o circo das pulgas, que não passa de um replay, como o dia da marmota. Hoje o pão já não é mais francês, mas o circo nem de longe é canadense.

Eu olho para cima em um dia ensolarado em busca de respostas. Em busca de esperanças. E o que eu vejo são nuvens cinzas dispersando os colibris.

Os urubus gritam em nossas cabeças o tempo todo, falam demais, mas não tem nada a dizer.

E o pior, mataram a mais bela siriema cantante da minha região, que proferia os mais lindos sons característicos do jardim que habitamos. Colocaram no lugar uma cigarra burra e repetitiva.

A siriema era vaidosa, seu canto externava nossas inquietações de forma poética e lúdica. As vezes ela voava para bem longe em busca de novas canções. Sempre voltava com grandes novidades.

Já a cigarra nos irrita como uma britadeira numa manhã de domingo. Ela tenta nos impor suas verdades morais, suas ideologias falsas e repletas de engano.

Não queremos verdades. Não queremos cigarras repetitivas. Queremos ver nosso jardim colorido, com espaço para todos os bichos, sem distinção de raça ou tamanho. Queremos ouvir a siriema! Ah, que saudade dela.

Os urubus gostam de nos prometer campos de lírios e tulipas, porém, não conseguem nem regar meu quase morto pau-brasil.

- Charles Tôrres

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