sábado, 20 de fevereiro de 2016

TELA SOBRE ÓLEO


“O verdadeiro ato de descoberta não consiste na busca de novas terras, mas em vê-las com novos olhos.”

O francês Marcel Proust não poderia estar mais lúcido ao conceber essa frase. Somos frutos da imposição de um sistema regido pela rotina e pela sequência de fatos diários, que nos colocam numa cadeia de acontecimentos, ora distintos, ora semelhantes... os quais, mesmo que interpostos, fazem do conjunto uma massa de única e inalterável. Somos programados a estudar pra entrar na faculdade, formar pra conseguir um bom emprego, trabalhar pra conseguir uma promoção, nos exercitar pra ter saúde, ver notícias pra ter o que comentar, se impor para não se abalar, acreditar em um deus pra não ter medo do dia seguinte. Somos programados pra isso desde o berço, porém não nos damos conta. Nos vangloriamos por ter opinião formada, mas poucos se tocam que essa opinião não passa de uma reestruturação do conceito de outro indivíduo. Por mais que tentamos olhar pra frete ou para o alto, nossa visão periférica sempre vai enxergar o próprio nariz. Na teia em que vivemos raramente olhamos para os lados. Mas quando olhamos, descobrimos um mundo novo. Um mundo de possibilidades. Um mundo onde podemos construir outros mundos, mesmo que dentro do próprio quarto. Quando aprendermos a enxergar as coisas além do ensinado, estamos nos instruindo a dar valor aos pequenos detalhes mundanos, dar mais doçura ao nosso dia-a-dia e descobrindo novas possibilidades. Vamos beber os mares e comer montanhas, como disse Pablo Neruda. Vamos observar as pessoas e compreender que todos dizem a mesma coisa, fazem a mesma coisa, e a poesia da vida está na descoberta no diferente, no distinto. Vamos andar por caminhos tortos a fim de amar as curvas. Isso é fotografia! É poesia! É a verdadeira caixinha de surpresas. Viver de fato, não apenas existir. 

© Charles Tôrres / BH - Uma Foto por Dia

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